Diz a sabedoria popular, e com razão, que um penálti bem marcado é indefensável. Mas, nem todos os futebolistas são Maradona, e põem a bola onde têm os olhos. Para estes, a ciência e a estatística pode dar uma grande ajuda, principalmente para quando os jogos, depois dos 90 minutos e prolongamento, se decidem nas grandes-penalidade.
Ora vejamos: um grupo de investigadores da University College de Londres analisou 37 desempates por penáltis das fases finais de Mundiais e Europeus entre 1976 e 2012 e chegou a conclusão de que o comportamento dos guarda-redes tende a obedecer a chamada “falácia do apostador”. Após uma sequência de remates para o mesmo lado, os guarda-redes têm uma propensão a atirar-se para o lado contrário.

Este tipo de comportamento não é original, sendo muito semelhante ao encontrado por apostadores em casinos, nomeadamente na roleta, onde um apostador prefere pousaras fichas na cor oposta àquela que saiu repetidamente nas ocasiões anteriores. Isto enquadra-se naquilo que os especialistas designam por “falácias cognitivas” – uma perceção empírica sem fundamento que nos leva a tomar decisões erradas.

Na raiz desta tendência está uma característica comum ao ser humano: a dificuldade em gerar imprevisibilidade. E aqui está uma das diferenças entre o guarda-redes – que é apenas uma pessoa que tem que gerir uma sequência de comportamentos – e os rematadores – que são sempre diferentes. “Os guarda-redes têm a desvantagem de produzir um comportamento sequencial previsível” e, por outro lado, “o grupo de rematadores pode coletivamente produzir uma sequência mais aleatória do que qualquer indivíduo singular”.

Ao permanecer no centro da baliza, os guarda redes têm mais de 30% de possibilidades de defesa. Caindo para um dos lados, a percentagem de exito cai para metade
Ao permanecer no centro da baliza, os guarda redes têm mais de 30% de possibilidades de defesa. Caindo para um dos lados, a percentagem de êxito cai para metade

No entanto, se os guarda-redes caem frequentemente neste padrão de comportamento, os avançados ou marcadores das grandes penalidades parecem não o ser capazes de os detetar. O estudo conclui que “os rematadores podem simplesmente não conseguir perceber, ou falhar em explorar” o comportamento dos guarda-redes, o que significa que “a vulnerabilidade pode permanecer sem ser penalizada”, lê-se no estudo referido.

E, neste ponto, em 2014 apareceu um estudo que pode e em muito beneficiar os guarda-redes nas grande penalidades. A investigação conduzida pelo professor Ofer Azar, da Faculdade de Gestão da Universidade Ben-Gurion (Israel), concluiu afirmando: os guarda-redes que optarem por permanecer no centro da baliza, sem se lançarem para o lado esquerdo ou direito, terão muito mais hipóteses de defender um penálti.

A equipa de Ofer Azar analisou pormenorizadamente 286 penáltis marcados nas principais ligas europeias e campeonatos internacionais. Os remates foram classificados em três grandes grupos (para a esquerda ou direita do guarda-redes; remate para o centro da baliza), tal como as acções desenvolvidas pelos guarda-redes (imóvel no centro da baliza; salto para a esquerda ou direita).

De acordo com os cálculos de Azar, os guarda-redes terão 33,3% de hipóteses de evitar o golo se permanecerem no centro da baliza. As percentagens descem dramaticamente no caso de salto para a esquerda (14,2%) ou para a direita (12,6%).

Apesar de os dados recolhidos por Azar demonstrarem sem qualquer margem para dúvida que a melhor estratégia será permanecer no centro da baliza, apenas uma minoria insignificante – 6,3% dos guardiões envolvidos nos 286 penáltis analisados – fez essa escolha. O estudo aborda esta contradição e aponta como explicação: “a norma, para os guarda-redes, é atirar-se para um dos lados. Das entrevistas aos 32 guarda-redes profissionais de topo ficou a clara conclusão que existe uma predisposição para a ação. Isso implica que um golo marcado num penálti provocará, no guarda-redes, uma reação muito mais dolorosa se ele optar pela impacção (ficar no meio da baliza) em vez da ação (atirar-se para um dos lados)”.

Um terceiro estudo desenvolvido por um grupo de cientistas da Universidade de Greenwich descobriu, que para aumentar as hipóteses de defesa se deve optar por otimizar as capacidades de ler a linguagem corporal dos guarda-redes (algo que eles já fazem mas empiricamente e sem formação). Para o estudo em questão, colocou-se uma maquina de filmar atrás da baliza, a altura dos olhos de um guarda-redes de estatura média e com a lente ajustada para simular a sua visão. A câmera filmou 46 cobranças de penaltis. O filme foi transferido para o computador e submetido a um software de análise de movimento.

O programa mediu os ângulos da perna de apoio, do ombro, da bacia, dos pés e do tronco do jogador, durante sua corrida e imediatamente antes do remate. A análise estatística permitiu concluir que apenas os ângulos do ombro e da perna de apoio em relação ao chão estão associados a direcção do remate. Essas medidas permitem prever se a bola será lançada no centro, no lado direito ou esquerdo.

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