Quem é o melhor jogador de futebol de todos os tempos? Sempre que este debate surge, seja na televisão feita por especialistas ou no café entre amigos, dois nomes se destacam: Pelé e Maradona. Nos últimos anos Lionel Messi vai ameaçando entrar nesta luta. Inexplicavelmente o nome de Manuel Francisco dos Santos, Mané Garrincha ou simplesmente Garrincha, nunca é mencionado. Talvez a rivalidade Brasil com a Argentina, faz com que mesmo os seus conterrâneos puxem por Pelé e se esqueçam d´ “O Anjo das Pernas Tortas”, nome pelo qual Garrincha também é conhecido. O vídeo, que só começou em 62, falhando os melhores anos de Garrincha, também ajudará a explicar o seu esquecimento. Contudo, o principal fator há-de ser o próprio Garrinha, a sua personalidade, ser antissistema, o alcoolismo, a vida boémia que levou pós futebol, e ter vivido os seus últimos anos em total miséria. Com o surgimento das plataformas de partilha de vídeos, existe toda uma nova geração a descobrir este craque e muitos outros a relembrar porque este homem é o melhor ponta direita de sempre do futebol Mundial.

Houve um brasileiro melhor que Pelé: Garrincha. Tinha uma perna torta e outra normal, como podia fazer tudo aquilo? Era um paralítico. Ele era muito melhor do que todos nós, mas era do povo, gostava de uma bebida que não era água e, por isso, ficou marginalizado. Eusébio, futebolista português

Manuel Santos, de sangue índio, nasceu no seio de uma família extramente humilde a 28 de Outubro de 1933, em Pau Grande, uma pequena localidade a 70km do Rio de Janeiro. Ganhou alcunha que o haveria de acompanhar para toda a vida pelo rebatismo da sua irmã Rosa, que encontrou semelhanças entre ele e uma ave chamada Garrincha, uma ave irrequieta e que recusava o cativeiro. Diga-se aliás que o amor aos pássaros era uma das grandes paixões de Garrincha.
Começou a jogar futebol no clube da sua terra aos 15 anos, e a sua verdadeira oportunidade chegou tarde, apenas aos 19. Depois de recusado em vários dos grandes clubes da cidade do Rio de Janeiro, e sem interesse por parte deste pelo seu ar “aleijado”, Garrincha chegou ao Botafogo para um teste. Teste esse que é hoje uma das maiores lendas do futebol brasileiro: um rapaz que nem chegava ao metro e setenta de altura, com as pernas tortas e a perna direita seis centímetros mais pequena que a direita enfrentou no primeiro treino Nilton Santos, o lateral-esquerdo da seleção brasileira, e fintou-o e driblou várias vezes.

Garrincha realizou 60 jogos pela seleção nacional do Brasil, apontou 16 golos e foi 2 vezes campeão do Mundo: 1958 e 1962.  Em 62, com Pelé lesionado, Garrincha fez o mesmo que Maradona consegui com a Argentina em 86: ser a figura principal e marcar os golos mais decisivos. Como se costuma dizer: ser “campeão sozinho”.

O Botafogo havia de se tornar no clube de toda a sua carreira. Ao todo 95% dos seus jogos profissionais foram lá jogados, sagrando-se tricampeão carioca. Já em final de carreira havia de jogar , em curtas passagens, pelo Sport Club Corinthians Paulista, Clube de Regatas do Flamengo e no Olaria Atlético Clube.
Fora dos campos, Garrincha casou-se com Nair, namorada da infância, com quem teve nove filhas. Separou-se de Nair e foi casado com Elza Soares por 15 anos. Os dois tiveram um filho, Manuel Garrincha dos Santos Júnior – que faleceu ainda bem jovem aos nove anos de idade, num acidente automobilístico.
Vivendo sempre uma vida ao som das suas vontades, Garrincha nunca foi um atleta exemplar. Demasiado álcool e constantes aventuras sexuais fizeram com que nem sempre Garrincha estivesse ao seu melhor e a vitória escapou-lhe por muitas vezes.
Mas jogava o futebol como vivia, apontando apenas para a diversão, a sua e a dos adeptos. Por isso recebeu a alcunha de “Alegria do Povo”.  Abaixo o porquê da alcunha de garrincha

Garrincha assinou algumas das páginas mais brilhantes da seleção brasileira. Foi campeão mundial em 1958 e 1962. Estrou-se no mundial de 58 pela amarelinha, na suécia, mas podia nem ter sido convocado tal era a desconfiança que cai sobre si por parte do selecionador, que muitos acusavam de preferir jogadores brancos a jogadores negros.

Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho. Carlos Drummond de Andrade, poeta

João Máximo conta: “Antes da Copa de 1958, a selecção contratou um psicólogo para examinar os jogadores. O Nilton Santos foi um dos primeiros a fazer os testes, em que tinham, por exemplo, de botar um triângulo dentro do círculo, depois um quadrado dentro do triângulo. O Nilton percebeu que algo ia correr mal com o Garrincha e disse ao médico: ‘doutor, vem aí um rapaz chamado Garrincha. Ele não vai saber nada disso que o senhor está pedindo, mas não liga não, porque ele joga muito futebol’. Não sei o que aconteceu lá dentro, mas o João Carvalhais, o psicólogo, aprovou o Garrincha.”

Garrincha foi 2 vezes campeão do Mundo pelo Brasil: 1958 e 1962
Garrincha foi 2 vezes campeão do Mundo pelo Brasil: 1958 e 1962

om Garrincha em bom plano, o Brasil conquistou o primeiro trofeu mundial; seleção onde também aparecia Pelé com apenas 17 anos, mas já um “craque”.
A consagração de Garrincha aconteceu 4 anos depois, no Mundial no chile. Com a dupla Pelé e Garrincha o Brasil partia como claro favorito. Mas Pelé lesionou-se gravemente no segundo jogo, contra a Checoslováquia, e não atuou mais nesse Mundial. Garrincha assumiu então as rédeas da equipa, “sem Pelé, apareceu o Mané”, e conduziu o seu país a um novo triunfo. Tal como acontece aos melhores atletas, Garrincha superou-se e mostrou atributos que até ai eram pouco habituais como golos de cabeça ou de pé esquerdo. “Garrincha, de que planeta vienes?”, foi a capa do jornal chileno El Mercurio. L’Équipe descreveu-o como “o ponta-direita mais extraordinário que o futebol já conheceu.” O mundial de 62 tornou Garrincha em uma lenda.

Ele (Garrincha) parado já era um drible. Jô Soares, apresentador de TV e comediante

Haveria de novo de jogar em um Mundial – na Inglaterra em 66, mas Garrincha era já uma sombra do que fora. A idade e a vida de excesso começaram a ganhar vantagem ao génio. O brasil sairia eliminado na fase de grupos com duas derrotas frente à Hungria e a Portugal.
Depois disso jogaria mais seis anos. Mas não mais no seu Botafogo. E não mais com o seu génio, que só a espaços aparecia. O álcool tornou-se ainda mais presente na sua vida. Depois do futebol era a única coisa que passou a conhecer. Assim como a pobreza com que voltaria a criar laços de intimidade.

Uma das suas características mais notadas era o fato de ter as pernas tortas. A sua perna direita, seis centímetros mais curta que a esquerda, era curvada para o lado esquerdo, e a perna esquerda seguia o mesmo sentido. Segundo o biógrafo Ruy Castro, Garrincha teria nascido assim. Outros depoimentos apontam essa característica como sequela de uma poliomielite.

Garrincha foi um fenômeno que ultrapassou as fronteiras do futebol. Foi um artista que inspirou artistas por toda a américa do sul. O escritor uruguaio, Eduardo Galeano, escreveu: “Quando ele estava em campo, o gramado virava um picadeiro de circo: a bola se tornava um animal amestrado e a partida, um convite para a festa”. No mesmo texto Galeano descreveu perfeitamente o que era este futebolista com a bola: “Garrincha defendia o seu bicho de estimação — a bola — e juntos faziam travessuras que matavam o público de rir. Ele pulava sobre a bola, ela saltava sobre ele e depois se escondia. Ele fugia dela e ela o alcançava. Enquanto isso, os adversários se chocavam entre si”.

Se tivesse uma religião seria a das pernas do Garrincha. Iria adorá-las e reverenciá-las pelos santos e abençoados dribles nos “joões?. Os argentinos não criaram uma religião para o Maradona? Por que não criamos outra para as pernas do Garrincha? Tadinho de Maradona com aqueles driblezinhos previsíveis, aquelas perninhas certinhas e bem torneadas… Estou falando de coisas imprevisíveis, sagradas, míticas, que fizeram a realeza Sueca, em 1958, curvar-se às suas chuteiras; depois no Chile, em 62, a sagração. Maciel de Aguiar, escritor

Foi um génio. Um génio improvável. As suas pernas tortas não o deveriam deixar jogar futebol. A sua personalidade também não. João Máximo a esse respeito escreveu: “O Garrincha, como o Brasil, não poderia ter acontecido. E, como o Brasil, aconteceu. Um era analfabeto, aleijado, alcóolatra. O outro é enorme, com o número de analfabetos e a corrupção que teve, não era para acontecer, mas aconteceu”.

Depois do futebol, a vida de Garrincha foi difícil. Decadente. Triste. Voltou à pobreza. O alcoolismo levou-lhe a melhor. Frequentemente era apanhado embriago, desmaiado na rua, e levado para as urgências do hospital. Em 1983 e com 49 anos Garrincha morreu. Jovem e em desgraça. As tragedia acompanharam-no sempre. Atropelou o pai. Num acidente de viação, em 1969, em que Garrincha conduzia o carro acabaria por ser fatal para a sua sogra. O seu filho com Elza Soares, como já falado, acabaria por falecer também num acidente de automóvel. E o mesmo aconteceria com outro seu filho, Nenem, falecendo nas estradas portuguesas.
O que poderia ser Garrincha no futebol atual é difícil de imaginar. Seria um génio ainda maior? Talvez o fosse. Os relvados são melhores. Os equipamentos também. E todo o seu talento estaria lá. Mas, num futebol de regras inamovíveis e táticas inalteráveis seria a sua personalidade compatível? Poderia ele deixar-se “prender”? Não sei. Sei apenas que Garrincha é a imagem do jogador que todo o menino sonha ser. Com os seus dribles impossíveis e que desafiavam as leis da física. A arte dos seus golos. Um ídolo que talvez até pela sua morte prematura é mitificado pelos adeptos do seu país. Mas em grande medida esquecido pelo resto do Mundo. Esperemos que o seu nome carimbado no estádio de Brasília leve as pessoas fora do Brasil a perguntarem-se quem era este homem. Quem o fizer não se irá arrepender.

A vida de Garrincha está em diversos livros, poemas, documentários e filmes.

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