José Pedroto: Pioneiro, Génio da Táctica e “Mind-Games”


José Neto, antigo professor universitário e companheiro de muitos anos de Pedroto, aquando da homenagem dos trinta anos da morte do eterno “Zé da Boné”, descreveu assim o amigo: “José Maria Pedroto estava muito além do seu tempo. Na sua conceção de jogo, no tratamento do jogo… foi um homem para lá do tempo, que fazia da luta determinação . Da vida, paixão. Da derrota, classe. Da vitória, ousadia. Da sabedoria, humildade. E vivia no coração das gentes simples. Era o «senhor Pedroto». Formulava questões, rompia conceitos, desafiava o erudito e encorajava o intranquilo”. Pedroto foi ainda, e pelas palavras do presidente do FC Porto – Jorge Nuno pinto da Costa, “ Um homem de Grande Carácter”. A tudo ainda se soma, o facto de ter sido um dos principais responsáveis para radical alteração geográfica no mapa futebolístico e desportivo português, terminando com a hegemonia dos dois grandes clubes da capital, traçando o caminho que levou o domínio do FC Porto nos últimos trinta anos.
Pedroto fundou em Portugal as bases do futebol moderno. Do passe. Da posse de bola. Do jogo bonito. Da (nova) táticas, da pressão alta, da análise estatística e da ciência, e de tudo o mais, sem nunca esquecer a emoção e de tudo o que lhe vinha do coração. E, bem antes de Mourinho: os “mind-games”.


E, por tudo isto, é incompreensível o esquecimento da gala dos 100 anos da FPF; as próximas páginas, são a nossa forma singela de consertar um pouquinho, ainda que diminuto, esse enorme erro cometido pelos dirigentes do futebol português.

José Maria Pedroto nasceu em em Lamego a 21 de Outubro de 1928. Hoje, se ainda fosse vivo, teria 86 anos. O Zé do Boné como era carinhosamente conhecido foi um dos mais carismáticos e importantes, e apelidado por muitos de revolucionário, do futebol português. Iniciou-se no futebol na década de 50 como jogador, um médio talentoso, 17 vezes internacional e campeão no FC Porto com Yustrich e Béla Guttman.

Pedroto, ainda antes de iniciar a sua carreira de treinador foi pioneiro, sendo o primeiro técnico português  a especializar-se com um curso em Paris em 1960.  No futebol profissional sénior, Pedroto iniciou-se na Académica, na cidade de Coimbra, onde ajudou a criar enormes talentos nacionais. Com o prestígio em alto rumou ao leixões, o único projeto onde falhou e acabou despedido. Reabilitou-se no Varzim, a sensação do ano, e no ano seguinte, em 1966, realizou um sonho: tornar-se treinador principal do FC Porto. Fica até 1969 e vence uma Taça de Portugal. Depois ruma até Setúbal, altura em que o Vitória obtém alguns dos melhores resultados da sua história, sendo uma vez vice-campeão, uma vez finalista da Taça, e obtendo excelentes prestações nas competições europeias.Em 1974, mudou-se para o Boavista. Em dois anos obtém o 2º lugar no campeonato e vence 2 Taças de Portugal.Volta às Antas em 1976 para vencer dois Campeonatos (1977-78 e 1978-79) e uma Taça de Portugal. Volta às Antas em 1976 para vencer dois Campeonatos (1977-78 e 1978-79) e uma Taça de Portugal. Sai quando falha o “tri” e num dos momentos mais conturbados da história do FC Porto. O chamado “verão quente” onde futebol, politica e regionalismo caminharam lado a lado.

Foi uma relação muito especial, de grande proximidade e cumplicidade nos tempos em que trabalharam juntos. Além da questão profissional, havia grande fraternidade e amizade pessoal. A relação profissional ajudou a construir à volta dela uma relação de amizade sólida e duradoura.” Rui Pedroto, filho de josé Pedroto, sobre a relação do pai com Pinto da Costa.

O verão quente, segundo diversas opiniões,  atrasou, e em muito, a afirmação da equipa nortenha no panorama do desporto Português, mas teve a virtude de levar Jorge Nuno Pinto da Costa à presidência do Clube. E com ele, o regresso de Pedroto que tinha estado em Guimarães durante dois anos, com Artur Jorge como seu adjunto, o treinador que haveria de fazer do FC Porto campeão europeu. O o Zé do Boné voltou entºao para a sua terceira e última etapa no clube que durou até à sua morte, a 8 de Janeiro de 1985.
Durante esse tempo Pedroto juntamente com Pinto da Costa haveriam de lançar as bases para a Transformação do futebol português.
O seu filho, Rui Pedroto, fala assim da relação do pai com Pinto da costa: “Foi uma relação muito especial, de grande proximidade e cumplicidade nos tempos em que trabalharam juntos. Além da questão profissional, havia grande fraternidade e amizade pessoal. A relação profissional ajudou a construir à volta dela uma relação de amizade sólida e duradoura. Foi, seguramente, a pessoa que o acompanhou mais de perto, que o conhecia melhor nas suas diversas facetas e com quem partilhou as dificuldades mas também os momentos de maior glória desportiva mas que excedem e muito, e penso que é com essa ternura e saudade que ele fala, a mera relação profissional, mas que lembram sim o amigo desaparecido”. A estratégia de Pedroto e Pinto da Costa passou e muito pela luta contra o centralismo do Sul, e com o exacerbamento regional dos adeptos do FC Porto. Das frases célebres destaca-se: “a Ponte da Arrábida «bloqueava» os jogadores do FC Porto (quando ia para sul e defrontava ou Benfica Ou sporting), Atravessar o Rio Douro era o início da derrota portista”. Outra das suas frases celebres foi os “roubos de Igreja” e a preferência política pelos clubes da capital, e pelo beneficio dos árbitros a esses mesmo clubes e em desfavor do FCP.

Pedroto foi um pioneiro. Um revolucionário que revolucionou o futebol portugês. O primeiro treinador a aplicar os conceitos básicos do 4-4-2, a cultura do futebol de posse, a troca posicional de extremos e laterais para jogar com a perna trocada. Criou uma cultura de balneário impar, um corporativismo quase britânico, e exigiu apenas aos seus jogadores que encarassem cada jogo como se fosse o último.

Mas foi mais além. Acreditava que o profissionalismo precisava de um conjunto de exigências de carácter técnico, físico e psicológico que ainda não havia no futebol português. Pedroto lutou ao longo da carreira por um conjunto de medidas estruturais a começar pelas condições de trabalho para os jogadores, como campos para treino, equipamentos, e os cuidados médicos indispensáveis na alta competição. O antigo médico do FC Porto, Domingo Gomes, disse: “Posso afirmar que Pedroto foi o meu primeiro professor de medicina desportiva na globalidade que esta especialidade abarca. Estava atento a tudo na minha área e aceitava tudo o que lhe propunha”. Acreditava ainda na estatística e na análise científica do jogo, que são hoje ferramentas indispensáveis de qualquer equipa técnica.
Foi também um homem de polémicas e de feitio duro. Talvez a mais conhecida seja com Mario Wilson, conhecido benfiquista e na altura treinador da seleção portuguesa. Wilson convocou inúmeros jogadores do FC Porto, para num jogo particular com a Espanha, que decorreria entre dois jogos do Porto com o Milan para a Taça dos Campeões Europeus, o que evidentemente prejudicava a equipa portista. Zangado, Pedroto não se conteve, e chamou “palhaço” a Mario Wilson. Com a troca de bocas a subir de tom, Pedroto haveria de acrescentar: “ Quando disse que Mário Wilson, como treinador, era um palhaço, não tive intenção de ofender os palhaços”.

Portugal já teve treinadores que atingiram o auge e fama Mundial, Mourinho, Artur Jorge ou Vila Boas, mas nenhum foi, no entanto, tão influente quanto José Maria Pedroto, ou simplesmente, O Zé do Boné.

Para o Sr. Pedroto um eterno obrigado.

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